Análise crítica do livro: O grão de areia - autor Tito Mellão Laraya

Análise crítica do livro “O grão de areia”, de Tito Mellão Laraya

 

Por Alexandra Vieira de Almeida

Doutora em Literatura Comparada 

 

            Neste livro de Tito Mellão Laraya, o próprio título indica uma possibilidade de preenchimento, de transbordamento, já que algo tão minúsculo como o grão representa uma grandiosidade, transformando algo doloroso em uma pérola. Algo menor se revela numa coisa sublime. E é deste forma que a narrativa do autor se vivifica. Um texto breve, que relata algo corriqueiro, os meandros do trabalho jurídico, do desejo, em atmosfera artística.  Mais adiante, na narrativa, o grão de areia se transforma em intimidade, desejo, não é algo apenas ligado à realidade do mar, abissal, mas da vida, que ganha ares de sublimidade, devido à comparação em que o autor faz entre sua relação amorosa e o fato científico. A intimidade de um momento se transforma em obra, o grão de areia inicial é trabalhado na relação entre dois seres. Tudo que é mostrado no início da narrativa de forma reflexiva se transforma em “ato” na passagem do grão de areia e a paixão entre ambos. Logo no início do livro, temos algo incomum como se traduz a narrativa ao longo dos capítulos. Temos um prefácio original que não é em forma de prosa, mas na forma poética. Uma poética densa, reflexiva que não se pagina na água parada do esquecimento, mas na memória de mares envolventes, que revelam pérolas em meio ao abismo. A Kívia a quem ele se refere no prefácio não poderia ser a possível narradora ficcional do livro que envia o livro para o editor? Ou é um livro dedicado à Kívia, o amor da vida do narrador? Esta dubiedade é rica. O livro joga com a própria ambiguidade do literário, o autor cria ricamente a dúvida no leitor, que poderia ser sanada pelo verso “Mas é o que sei fazer”, referindo-se a ele. Mas isto não poderia ser um jogo de despistamento para enredar o jogo na malha ficcional do texto, mostrando, ao mesmo tempo, o jogo do amor que faz a fusão, alternâncias e oscilações entre Franscisco e sua endereçada amada? O paralelismo nome do autor/nome do personagem Francisco poderia criar a atmosfera de um texto autobiográfico, mas que pelas lacunas, oscilações, reflexões e ambiguidades, ferem o princípio da realidade para se deter na ficcionalidade do texto, mais ainda exemplificada no exemplo acima entre amante e amada. Na narrativa por aqui estudada, os personagens não são planos, para usar a terminologia de E.M. Forster, pois não são previsíveis, modificam-se ao longo da narrativa, são paradoxais e complexos, sem um acabamento perfeito. Este teórico, em Aspectos do romance, usa o nome de “redondos” para se referir a estes personagens que não se enquadram num esquema fechado e programado. Os personagens em “O grão de areia” são paradoxais, interrogativos, cínicos, irônicos, são múltiplos, não apresentam uma essência una e indivisível, mas vários eus dentro de um mesmo ser. Por exemplo, Francisco é apresentado como alguém sensível que aprova a arte e ao mesmo tempo tão preocupado com o dinheiro, mas até mesmo esta situação não é estável, ela se modifica, como veremos no final do livro.

            As oscilações de personalidade não percorrem apenas no fio tênue do conteúdo da narrativa, também explodem lindamente na forma como o autor trabalha seu texto, pois conteúdo e forma se mesclam de forma paralela e unida, fazendo de seu texto uma fonte de conhecimento perene. Une poesia e prosa. A primeira parte é um texto reflexivo, com digressões, questões. A segunda parte causa um choque no leitor, pois causa uma ruptura com a forma inicial e se adentra na narrativa tradicional com a contação de uma história bem amarrada. A primeira parte é mais livre. Embora a segunda parte siga o percurso de uma narrativa usual, veremos este mesmo jogo de oscilações que vence o marasmo de um texto corriqueiro com início, meio e fim.

            A vivência é ficcionalizada neste romance atípico que escapa do primado do real pelo transbordamento deste mesmo limite do real. O autor utiliza a vida como material poético. Goethe numa carta a Schiller já tinha dito que “o poeta é poeta por saturação da experiência”. É por este agravamento do real, sua saturação, que Francisco extrapola a simples vivência com a “experiência” do ficcional. Como o narrador diz na primeira parte da sua narrativa: “Até hoje não sei se escrevo poesia, verso, prosa poética ou o quê, só que sou um poeta, pois vivo com um pé na realidade, outro na ilusão e a cabeça buscando a perfeição”. Por isto, não seria a visão dela, Kívia, mostrando a relação entre os dois, criando personagens ficcionais a partir de fatos? Ou ele mesmo, ser real, Francisco cria a narrativa para jogar com o real em excesso, produzindo, ao contrário, seu afastamento, criando o rico paradoxo entre o que é real e imaginado, o sonho e a vigília?

            Outro paradoxo essencial nesta obra de Francisco (pois seu texto é rico nesta imagem literária) é entre o sentir e pensar, que aparece tão fortemente na primeira parte, de forma teórica e reflexiva, quanto na segunda parte, na forma da contação de uma história, na relação entre Francisco e Cláudia. O paradoxo é também formal. Se na primeira parte, temos um romance-tese sobre os sentimentos e os pensamentos, na segunda parte, isto é transformado em ato, pelas ações que percorrem o eixo da narrativa-história. Romance-tese/romance-ato, as duas faces da moeda nobre do livro de Laraya. Em Tito, o sentir e o pensar se exprimem através da mescla entre poesia e prosa, em que ambas utilizam os dois recursos de formas intercambiáveis: “Entreguei a ela ontem uma frase deste livro”. Aqui não poderia haver uma estratégia do narrador ao referir isto como um ato de fingir? Pois a troca do amor entre ambos é tão grande, eles são tão identificados, que ela se transforma em narradora e ele em espectador e vice-versa. O poema no livro que fala na relação entre o sentir e pensar bem resume a essência de seu livro, o cerne que constrói a estrutura de seu pensar-sentir. Tal recurso, leva-me a pensar em um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Alberto Caieiro, o mestre, que na ideologia de seus versos estava presente a fusão com a natureza, o sentir e não o pensar como sentido da existência. Num dos versos de Alberto Caieiro, ele disse que “pensar é estar doente dos olhos”. Mas, por outro lado, num verso do mesmo heterônimo, temos “Há metafísica bastante em não pensar em nada”. É esta ambiguidade de Pessoa que vemos enredada em todo livro de Laraya, pois se o narrador tenta estrategicamente negar o pensar pela positivação do sentir, há muita filosofia na sua própria negação, pois Francisco está refletindo sobre o pensar, como no verso de Caieiro, mostrando o paradoxo entre o sentir e o pensar, que se complementam em uma unidade encantadora. O narrador diz: “Cada vez que penso ou imponho dificuldades e as venço sinto-me assim, por isso, o meu escrever é repleto de nuances, de armadilhas, de dificuldades: como meu viver!”. Neste sentido, o texto deste autor não se quer facilitador para o leitor, é paradoxal, cheio de artimanhas, dificuldades, armadilhas. Há um texto de Mario Quintana, “Pausa”, que explica bem esta artimanha do próprio ficcional tão bem elaborada por Tito aqui. Quintana explica que o objetivo do autor é propor enigmas ao leitor. O texto não tem que ser facilitador, mas complexificar as questões. Na escolha mesmo do amor temos os matizes entre os tons afetivos e as realidades cruas, tanto na primeira parte quanto na segunda.

            A narrativa-tese inicial versa sobre a vida, a arte em geral e mostra o paralelismo entre o cotidiano ligado à natureza e o artístico. O autor faz uma linda comparação entre o fato apenas natural do grão de areia e a criação do incômodo criando a pérola e a arte, pois no processo criativo o artista passa pela dor, pelo desconforto, pela imperfeição e insegurança para atingir a sublimidade de uma obra. Portanto, novamente, aqui, a beleza do paradoxo entre o real e o ficcional. A criação surge da negação, da falta. A mescla entre o narrativo e o lírico, principalmente na primeira parte revela que a reflexão, a tese pode conter a delicadeza, como na incrível imagem-metáfora do grão de areia formando a pérola. Também, temos aqui, por que não a poesia-tese, complementando a prosa reflexiva: “A ilusão transforma/ A dor em beleza?”

            A segunda parte do livro começa como uma narrativa psicológica, mostrando como atua a mente ansiosa do personagem. Como a narrativa é em terceira pessoa, o narrador se adentra na mente de Francisco. A insegurança da espera é inexistente, há hipóteses, conjecturas que são trabalhadas no pensar do personagem. A espera é dele e não do tempo real, pois ele foi atendido exatamente na hora combinada. A angústia da espera está em Francisco e não no outro, não é algo externo e sim interno. Por isto, a força da estrutura psicológica do texto. Ele sempre se sentia numa eterna espera, como estará presente ao longo da narrativa. Inicialmente, temos o formalismo da situação. A pessoa que ele vai conhecer é uma doutora advogada, “uma bela mulher de idade incerta”. O narrador joga com a falta de precisão nas caracterizações, o que cria um ambiente rico, pois se o narrador é onisciente, em terceira pessoa, por que esta falta de detalhes? Justamente porque o narrador se fragmenta nas personagens, tomando aspectos pessoais do ser. A ambiguidade é crescente no livro, ela se adequa de acordo com estados de ânimo das personagens. Dessa forma, temos uma narrativa-psicológica-lírica que canta poeticamente estes estados de alma. Muito interessantes são as descrições do narrador, revelando novamente aqui, um texto pleno de paradoxos, pois o ambiente destoava do formalismo da personagem. As peças e móveis do escritório da advogada apresentam falsificações baratas. O objeto descrito não é autêntico. E, assim, será que o sujeito é autêntico ou está preso às convenções falsas? O narrador deixa no ar esta importante questão, sugerida pelas descrições do ambiente e do interior das personagens. O reino das oscilações, dos movimentos de vai e vem perpassam a narrativa, que alterna entre a formalidade das convenções e a informalidade das relações, principalmente na esfera da afetividade como veremos mais adiante. A incerteza do personagem principal se choca com a certeza do narrador em terceira pessoa? Aqui se cria uma dinâmica rica e complexa. Da insegurança da personagem surge a segurança que acalma a partir do vício, o “cigarro e seus artifícios”.

            O início da narrativa é sem diálogos, os pensamentos e falas são embutidos internamente de forma indireta sem indicar com precisão, sem descrições detalhadas das falas. Temos visões gerais, sem explicar com especificidade. Eles dizem um ao outro sem o diálogo direto, usual. Depois de um tempo, começa o diálogo em discurso direto com travessão. Há diálogos entre aspas e outros com travessão, às vezes nem aparecem, pois são internalizados nas personagens. O autor alterna as formas de expressar as falas e pensamentos das pessoas. O objetivo do autor é criar um desnível, algo dissonante que quebra com a estrutura de uma narrativa tradicional, toda fechada e programada de acordo com o padrão textual. Estes desníveis refletem as contradições das personagens, que não são inteiras, mas fragmentadas. Sua narrativa não é inteira, é feita lindamente de dobras que se dialogam entre si. O mundo mesmo da profissão é ricamente explorado, mas se mostra desconhecido para o personagem Francisco. A forma como o narrador conduz o texto com traços da personalidade da personagem é criterioso, apesar das dissonâncias. O que ele mostra no seu texto, não é apenas os meandros do reino jurídico, mas, antes de tudo, seres humanos, que lidam com o que não pode ser medido pela lógica matemática, o “imponderável”, o que não pode ser medido pelo tempo exato nem pela plenitude total. Francisco lida com isto no início da narrativa, nem ele, nem nós leitores, sabemos do êxito ou do fracasso das situações descritas. Isto encanta Francisco. A imprecisão da vida, remete-me mais uma vez aos versos de Fernando Pessoa, que ele retoma do imaginário dos navegadores: “Navegar é preciso,/viver não é preciso”. O tom de mistério da narrativa é incrível, o narrador aguça a curiosidade do leitor. O narrador seduz o leitor de tal forma que este não quer parar de ler a narrativa. Há um jorro, um arrebatamento; e isto é o mesmo que Francisco faz com relação à Cláudia, a doutora advogada, o personagem joga com as diferentes formas de leitura com relação a ela no seu jogo erótico. Ele considera a personagem amada como a possível leitora dele também e não é isto o que fazemos o tempo todo nas nossas relações cotidianas. É uma realidade que o livro mostra, a realidade como livro.

            Estas hesitações são inquietantes, instigam o imaginário do leitor. Francisco tem uma desilusão com a proposta, com o serviço que ele terá que fazer no meio jurídico, como advogado. A apreensão inicial de Francisco, a rejeição devido a pouca possibilidade de lucro, leva-o, por outro lado à atração pelo caso, “o novo e inusitado do negócio” que poderia ter repercussão em reportagens de jornal. O personagem principal é levado pelo jogo do texto, este estado de espírito dele reflete este lado divertido, lúdico, o próprio universo literário, fazendo de sua narrativa uma obra metalinguística como um todo que dialoga com a manobra do texto. Mas quando Francisco está tocando Bach no seu instrumento musical e o telefone toca, temos uma ironia do narrador com relação ao cotidiano, que interfere neste espaço lúdico, ou seja, coisas triviais da vida, que parecem sem importância em contraponto com a arte. Estes valiosos paradoxos mostram que a obra, aqui por mim apresentada, tem desníveis entre o formal e o informal, o impessoal e o pessoal, pois depois de um certo tempo as pessoas são nomeadas, vestem a roupagem da intimidade. Quando Francisco e Claúdia conversam sobre o trabalho, o tom é formal, que se modifica logo após, quando vão jantar no apartamento dele, utilizando-se da informalidade e descontração. No mundo do jogo erótico, este é agradável, enquanto o universo do trabalho causa repulsa. O jogo prazer/erotismo/arte se contrapõe ao mundo do trabalho/hábito/labuta. Antes do jantar, Francisco a chama de Dra, na esfera do trabalho, mas no jantar a chama de Cláudia, revelando estas contradições. Francisco é sagaz, sedutor, inteligente, delimita bem o território dele.

            Outra característica formidável que o autor utiliza para explicar as situações que transcorrem no livro é o uso de citações de grandes escritores, como Goethe, Dante, Shakespeare, mostrando o conhecimento da tradição na sua obra. O gosto pelo erudito que a arte requer. Ele utiliza Dante para revelar certo tom destoante da comicidade em meio à formalidade e ao tom sério da situação descrita. Como Machado de Assis, que utilizava muitas citações para criar um deslocamento entre o texto citado e a descrição narrativa, o narrador aqui cria uma pausa necessária, como na música, para não cansar o leitor e fazê-lo desfrutar da tática do texto. A pausa no meio da narrativa serve para o narrador fazer suas reflexões e temos aqui na segunda parte que conta uma história, uma retomada da primeira parte, o romance-tese, demonstrando que Tito não quer um texto puro, sem contaminações, partes estanques entre si, mas o hibridismo entre as partes, que se contaminam e se adentram uma na outra, pois a primeira parte também se apresenta o viés de uma história contada. Francisco mostra que o sonho não pode fugir da realidade, tem que ser seu complemento, seu desdobramento. O tom de mistério e enigma com que o narrador conduz sua narrativa cria um belo livro que deve ser lido por gerações atuais e posteriores. Portanto, seu livro é complexo, revela a força do literário em toda sua extensão.

 

 

 

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